Autora: Eduarda Campos
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Uma jovem ocupando uma posição de poder no Brasil ainda causa surpresa. E talvez isso diga muito sobre a forma como a política foi historicamente construída: um espaço que, por muito tempo, excluiu determinados corpos, vozes e experiências. Raramente uma jovem é imediatamente reconhecida como alguém preparada para o engajamento político. Antes disso, costuma ser chamada de “muito jovem”, “muito emocional” ou “idealista demais”. Existe uma expectativa constante de que mulheres precisem provar sua competência antes mesmo de ocupar esses espaços.
Enquanto isso, homens frequentemente entram na política carregando algo que quase nunca é questionado: a legitimidade de sua presença.
Os números refletem essa desigualdade. Embora as mulheres representem cerca de 52% do eleitorado brasileiro, continuam sendo minoria nos espaços de tomada de decisão. Hoje, ocupam menos de 20% das cadeiras da Câmara dos Deputados. Para um país que se define como democrático e plural, o Brasil ainda ocupa posições preocupantes nos rankings globais de representação feminina.
Essa realidade é discutida por Miriam Pillar Grossi e Sônia Malheiros Miguel no artigo Transformando a Diferença: Mulheres na Política. As autoras analisam como as estruturas de poder brasileiras foram historicamente organizadas a partir de uma lógica patriarcal, dificultando a permanência e o avanço das mulheres nos espaços de liderança política.
O texto parte de reflexões levantadas em um seminário realizado em Brasília, no ano 2000, reunindo parlamentares, pesquisadoras, ativistas feministas e movimentos sociais. Entre os temas debatidos estavam a presença do feminismo na política e os impactos das políticas de cotas eleitorais.
As autoras mostram que as cotas surgiram como uma tentativa de enfrentar a desigualdade de representação e ampliar a participação feminina nos partidos e nas eleições. Mais do que aumentar números, elas buscavam obrigar os próprios partidos e a sociedade a confrontarem a ausência histórica das mulheres na política. Ainda assim, as mudanças estruturais foram limitadas, principalmente porque muitos partidos resistiram em oferecer apoio real às candidaturas femininas, destinando menos recursos, menos visibilidade e menos apoio político às mulheres.
Mas o problema vai além das instituições. Ele também se manifesta nos silêncios.
Muitas meninas crescem acreditando que determinados espaços não lhes pertencem. Desde cedo, aprendem que liderança feminina pode ser vista como exagero, que opiniões femininas podem ser interpretadas como arrogância e que ambição feminina ainda causa desconforto. Muitas descobrem rapidamente que precisarão ser duas vezes melhores para receber metade do reconhecimento.
Essa dimensão cultural também aparece no artigo, ao mostrar como a política continua sendo percebida como um espaço predominantemente masculino. Diversas mulheres relataram dificuldades para conquistar credibilidade dentro dos próprios partidos, ausência de incentivo para disputar cargos públicos e constantes tentativas de silenciamento. A exclusão feminina da política não acontece apenas pela falta de leis ou oportunidades formais, mas porque estruturas patriarcais continuam desencorajando a presença das mulheres nesses espaços.
Percebi isso muito cedo.
Minha trajetória política começou no Grêmio Estudantil de uma escola pública estadual no período noturno. Pela primeira vez, entendi como ocupar esses espaços, sendo mulher, nunca seria algo simples. Existe uma vigilância constante, uma sensação permanente de estar sendo observada, testada e questionada o tempo inteiro.
Ainda assim, a política sempre representou esperança para mim. Não uma esperança ingênua de mudanças rápidas, mas a esperança de que ainda é possível construir algo diferente e transformar estruturas que parecem permanentes.
Foi exatamente isso que senti ao participar do Parlamento Jovem.
A experiência transformou minha visão sobre política, representação e futuro. Mas houve algo que me marcou especialmente: toda a bancada era composta por mulheres. Ver jovens mulheres ocupando espaços de fala, liderança e tomada de decisão de maneira tão natural ao meu redor foi algo difícil de descrever.
E, ao mesmo tempo, parecia estranho — justamente porque ainda não estamos acostumados a ver isso na política brasileira.
Pela primeira vez, eu não me sentia uma exceção em um ambiente político. Minha voz não parecia deslocada. Estávamos ali debatendo propostas, criando projetos e ocupando espaços que historicamente sempre nos foram hostis.
Lembro de pensar, em silêncio, no significado daquela cena para tantas meninas que cresceram acreditando que política não era um espaço para elas. Aquilo era simbólico. Era político. E, acima de tudo, transformador.
Representatividade não significa apenas colocar mulheres em posições específicas. Representatividade muda aquilo que entendemos como possível. Quando uma jovem vê outra jovem ocupando espaços de liderança, ela passa a imaginar que talvez também possa chegar ali um dia.
E isso importa ainda mais em um país onde mulheres na política continuam sofrendo violência política de gênero, assédio, interrupções constantes em espaços de fala e ataques relacionados à aparência, idade, comportamento e capacidade intelectual.
O artigo também aborda essa questão ao mostrar que muitas mulheres enfrentam obstáculos que homens raramente enfrentam. Diversas participantes do seminário relataram receber menos apoio financeiro dos partidos, ter suas candidaturas enfraquecidas e enfrentar preconceitos diretamente ligados ao gênero. As autoras demonstram que, apesar dos discursos públicos sobre igualdade, a política ainda reproduz formas profundamente enraizadas de patriarcado.
E quando jovens mulheres ocupam esses espaços, elas não levam apenas discursos ou projetos. Elas levam novas perspectivas sobre educação, desigualdade, juventude, violência, trabalho e justiça social. Levam experiências que historicamente foram ignoradas pelas estruturas tradicionais de poder.
Talvez seja exatamente isso que ainda cause desconforto.
A presença de jovens mulheres na política não representa apenas uma renovação geracional. Representa uma mudança estrutural. Porque quando mulheres chegam aos espaços de liderança, elas não mudam apenas os rostos presentes nas fotografias oficiais. Elas transformam prioridades, debates e formas de fazer política.
Depois das minhas experiências no movimento estudantil e no Parlamento Jovem, comecei a entender que ocupar espaços públicos nunca é um ato individual. Nenhuma mulher chega sozinha. Sempre existe uma história de resistência antes dela.
E algumas das mudanças mais profundas começam justamente quando meninas deixam de crescer acreditando que precisam pedir permissão para existir politicamente.
Jovens mulheres na liderança não são uma anomalia, uma tendência passageira ou uma exceção admirável. Elas são fundamentais para a construção de uma democracia mais justa, humana e representativa.
Porque transformar a política não significa apenas inserir mulheres em estruturas já existentes. Significa permitir que elas também tenham força para transformar a própria estrutura.


