Dignidade menstrual e crise climática: por que falar sobre os dois assuntos ao mesmo tempo?

Autora: Monaliza Menezes de Sousa / Email: Menezesmonaliza498@gmail.com 

Dignidade menstrual e crise climática: por que falar sobre os dois assuntos ao mesmo tempo?

Menstruar faz parte da vida de milhões de pessoas. É um processo natural do corpo, mas, durante muito tempo, falar sobre menstruação foi quase um tabu.

A dignidade menstrual, porém, está longe de ser apenas uma questão de higiene. Ela é um direito humano fundamental e está diretamente relacionada à saúde, à igualdade de gênero e à justiça social. Ter dignidade menstrual significa poder viver o próprio ciclo com segurança, conforto e autonomia, tendo acesso a produtos adequados, água, saneamento, informação de qualidade e espaços seguros.

Mas o que acontece quando essas condições básicas não estão disponíveis?

Quando menstruar se torna um desafio

Por muitos anos, a menstruação foi cercada por estigmas, tabus e desinformação. Em diferentes sociedades e culturas, um processo completamente natural foi associado à impureza, à vergonha e ao silêncio.

Essas ideias não desapareceram completamente. Elas ainda influenciam a forma como meninas e mulheres aprendem sobre seus próprios corpos e podem dificultar o acesso à informação e a produtos básicos de higiene.

É nesse cenário que surge a pobreza menstrual.

Segundo o UNICEF, ela está relacionada às condições de pobreza e vulnerabilidade que dificultam o acesso a produtos de higiene menstrual, água potável, saneamento e informações sobre saúde. E seus impactos vão muito além do período menstrual: podem afetar a frequência escolar, a saúde, o trabalho, a participação social e, principalmente, a qualidade de vida.

Nas últimas décadas, movimentos de mulheres e organizações da sociedade civil ajudaram a levar essa discussão para o espaço público. Houve avanços importantes, mas a pobreza menstrual ainda faz parte da realidade de milhões de pessoas no Brasil.

E existe uma outra questão que precisa entrar nessa conversa: a crise climática.

O que a menstruação tem a ver com a crise climática?

À primeira vista, pode parecer que dignidade menstrual e mudanças climáticas são assuntos completamente diferentes. Mas, quando olhamos com mais atenção, percebemos que eles estão profundamente conectados.

As mudanças climáticas afetam justamente algumas das condições necessárias para uma menstruação segura e digna.

Enchentes, secas, ondas de calor e outros eventos extremos podem comprometer o acesso à água potável, ao saneamento e aos produtos básicos de higiene. Em situações de emergência, como desastres ambientais ou deslocamentos forçados, meninas e mulheres podem enfrentar ainda mais dificuldades para cuidar da própria higiene menstrual.

Imagine, por exemplo, estar menstruada durante uma enchente, sem acesso à água limpa, a um banheiro adequado ou a produtos de higiene. Para quem vive em situação de vulnerabilidade, a crise climática não é apenas uma questão ambiental: ela pode significar a perda de direitos básicos.

Por isso, falar de justiça climática também é falar de justiça menstrual.

As populações que menos contribuem para a crise climática estão, muitas vezes, entre as que mais sofrem com seus efeitos. E garantir condições dignas para a gestão menstrual precisa fazer parte das estratégias de adaptação e proteção dessas comunidades.

E os absorventes descartáveis?

Os absorventes descartáveis tiveram, e ainda têm, um papel fundamental na ampliação do acesso à higiene menstrual. O problema não está simplesmente na existência desses produtos, mas no modelo de produção e descarte que predomina atualmente.

Grande parte dos absorventes convencionais utiliza plásticos derivados do petróleo, polímeros sintéticos, adesivos e outros materiais que apresentam baixa degradabilidade.

Como são utilizados e descartados regularmente, esses produtos acabam gerando uma quantidade significativa de resíduos ao longo da vida de uma pessoa.

Além do descarte, existe todo o processo por trás da fabricação: extração de matérias-primas, consumo de água e energia, produção industrial, embalagens, transporte e distribuição. Cada uma dessas etapas possui uma pegada ambiental.

Entre os principais impactos estão:

  • a extração e o processamento de matérias-primas derivadas do petróleo;
  • o consumo de água e energia durante a fabricação;
  • o uso de plásticos e materiais de difícil degradação;
  • as emissões de carbono associadas à produção e ao transporte;
  • o acúmulo de resíduos em aterros sanitários;
  • e a liberação de poluentes quando determinados resíduos são incinerados.

Isso não significa que devemos simplesmente deixar de usar absorventes descartáveis. Para muitas pessoas, eles continuam sendo a opção mais acessível, prática e disponível.

A questão é outra: como podemos construir alternativas que sejam, ao mesmo tempo, acessíveis, dignas e ambientalmente responsáveis?

Existem alternativas mais sustentáveis?

Nos últimos anos, produtos reutilizáveis ganharam cada vez mais espaço. Coletores menstruais, absorventes reutilizáveis e calcinhas absorventes podem reduzir significativamente a quantidade de resíduos gerados ao longo do tempo.

Mas existe um ponto importante nessa discussão: sustentabilidade não pode ser tratada apenas como uma escolha individual de consumo.

Não basta dizer para uma pessoa trocar o absorvente descartável por uma alternativa reutilizável se ela não possui acesso à água, a um banheiro seguro ou às informações necessárias para utilizar e higienizar esse produto.

Por isso, construir uma menstruação mais sustentável exige olhar para o problema de forma ampla.

Precisamos falar sobre educação menstrual, políticas públicas, acesso, inovação, materiais biodegradáveis, infraestrutura, economia circular e justiça social.

O que é um Sistema Menstrual Regenerativo?

É justamente a partir dessa visão mais ampla que surge o conceito de Sistema Menstrual Regenerativo.

Mais do que simplesmente diminuir a quantidade de resíduos produzidos, a proposta é pensar em um sistema capaz de transformar as relações entre menstruação, pessoas, comunidades e meio ambiente.

Um sistema menstrual regenerativo busca unir diferentes dimensões: dignidade menstrual, saúde pública, justiça social e sustentabilidade ambiental.

Isso significa pensar em soluções que não sejam apenas menos prejudiciais ao planeta, mas que também sejam socialmente inclusivas e economicamente viáveis.

É entender que uma menstruação digna depende de muito mais do que um produto.

Depende de acesso.
Depende de informação.
Depende de infraestrutura.
Depende de políticas públicas.
E depende de um ambiente saudável.

Menstruar com dignidade também é falar sobre o futuro

No fim das contas, falar sobre dignidade menstrual é falar sobre a possibilidade de viver plenamente.

Nenhuma pessoa deveria deixar de estudar, trabalhar, praticar atividades, participar da sociedade ou simplesmente viver seu cotidiano porque está menstruada.

Ao mesmo tempo, não podemos construir um futuro mais justo ignorando os impactos ambientais do modelo que utilizamos hoje.

A crise climática nos obriga a repensar a forma como produzimos, consumimos e descartamos. E essa transformação precisa incluir também a maneira como pensamos a menstruação.

Porque garantir dignidade menstrual não é apenas garantir que alguém tenha um absorvente.

É garantir que essa pessoa tenha direito ao próprio corpo, à saúde, à educação, à autonomia e a um futuro sustentável.

E talvez seja justamente aí que esses dois debates se encontram: não existe justiça social sem justiça climática, e não existe justiça climática sem dignidade para todas as pessoas.

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