Autora: Beatriz Lima / Email: beatrizlima1957@gmail.com
Quando escolher a si mesma também é um ato de coragem
Por muito tempo, achei que já existia um caminho pronto para mim.
Cresci em uma família em que a ideia de sucesso para uma mulher estava muito ligada ao casamento, à construção de uma família e a uma vida considerada “estável”. Não era algo dito o tempo inteiro de forma explícita, mas estava presente nos comentários, nas expectativas e na maneira como imaginavam meu futuro. Como se, em algum momento, eu naturalmente fosse seguir aquele roteiro também.
Mas eu sempre fui uma menina de exatas.
Enquanto muita gente não gostava de matemática, eu gostava da lógica, da sensação de resolver problemas e da maneira como tudo parecia fazer sentido quando os números se encaixavam. Foi assim que comecei a me interessar por Economia. No começo, era apenas curiosidade. Depois, tornou-se algo muito maior. Pela primeira vez, senti que tinha encontrado uma área que realmente combinava comigo.
Mesmo assim, demorei para acreditar que aquele sonho poderia ser real.
Existe um momento na vida de muitas meninas em que seus sonhos começam a parecer “grandes demais”. O meu aconteceu quando decidi que queria estudar Economia fora do país.
Para a minha família, foi um choque.
Para muitas pessoas, não fazia sentido uma menina querer ir sozinha para outro país, construir uma carreira tão longe de casa e escolher um caminho tão diferente daquele que imaginavam para ela. Vieram as dúvidas, os medos e os questionamentos:
“Por que tão longe?”
“Você vai sozinha mesmo?”
“Mas e depois?”
“Você não acha arriscado?”
Com o tempo, percebi que aquelas perguntas nunca eram apenas sobre a viagem.
Eram também sobre o fato de eu estar escolhendo um futuro diferente daquele que esperavam para mim.
O peso de querer mais
A verdade é que mulheres ambiciosas ainda causam desconforto em muita gente, principalmente quando decidem priorizar os próprios sonhos.
Existe uma expectativa silenciosa de que meninas sejam cuidadosas, discretas, conciliadoras. Que tenham ambições, mas não ambicionem demais. Que sejam independentes, mas sem parecerem “intensas”. Que construam suas próprias vidas, mas sem se afastar muito do caminho que já foi traçado para elas.
Eu também precisei aprender a reconhecer esse peso.
Mesmo insegura, fui.
E uma das maiores lições que aprendi nesse processo é que coragem não significa não sentir medo. Coragem é sentir medo e continuar mesmo assim.
Quando embarquei sozinha para outro país, parecia que estava deixando para trás não apenas minha casa, mas também uma versão de mim que precisava da aprovação dos outros para tomar decisões.
Nos primeiros dias, tudo parecia enorme demais: o idioma, a rotina, as pessoas, a distância e a solidão de não conhecer ninguém.
Pela primeira vez, precisei aprender a confiar em mim mesma.
E isso muda uma pessoa.
Quando o sonho deixa de ser apenas seu
A menina que antes precisava explicar por que gostava de exatas começou a perceber que não precisava diminuir seus sonhos para caber nas expectativas de ninguém.
Aos poucos, fui entendendo que também tinha o direito de ocupar espaços acadêmicos, internacionais e profissionais. Que não precisava escolher entre ser uma mulher com grandes sonhos e ser alguém que pertencia à sua família. Que construir uma trajetória própria não significava rejeitar minhas origens.
A Economia também deixou de ser apenas uma escolha profissional.
Passou a ser uma forma de entender o mundo.
Eu queria compreender desigualdade, desenvolvimento e oportunidades. Queria entender como decisões econômicas, que muitas vezes parecem distantes e abstratas, impactam diretamente a vida das pessoas. Queria construir algo meu. Queria ser reconhecida não apenas como “uma menina inteligente”, mas como alguém capaz de liderar, criar e transformar.
E foi longe de casa que percebi uma coisa fundamental:
futuro não é aquilo que esperam da gente. Futuro é aquilo que escolhemos construir.
Escolher a si mesma
Ainda existe muita pressão para que meninas sonhem pequeno, sejam discretas em suas ambições e não ocupem espaço demais.
Mas cada vez mais jovens mulheres estão rompendo com isso.
Estão atravessando países, entrando em universidades, construindo carreiras, criando negócios, pesquisando, liderando movimentos e ocupando espaços que, durante muito tempo, pareceram inacessíveis.
Não porque seja fácil.
Mas porque estamos começando a entender que não precisamos pedir permissão para desejar mais.
Hoje, olhando para trás, percebo que minha história nunca foi apenas sobre estudar Economia fora do país.
Foi sobre aprender a escolher a mim mesma — mesmo quando isso significava contrariar expectativas antigas, enfrentar o medo e aceitar que algumas pessoas talvez não entendessem minhas escolhas.
E talvez exista algo muito poderoso no momento em que uma menina percebe que não precisa se tornar aquilo que imaginaram para ela.
Ela pode escolher.
Pode mudar de ideia.
Pode ir para longe.
Pode querer uma carreira, uma família, os dois ou nenhum deles.
Pode ser ambiciosa, ocupar espaço e construir uma vida que faça sentido para ela.
Porque escolher a si mesma não é egoísmo.
É reconhecer que a própria vida também merece ser uma escolha.



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